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Mulheres e calcinha fio dental: o que a moda revela sobre o machismo

Vocês lembram da calcinha fio-dental, febre nos anos 2000, exibida por celebridades como Britney Spears, Christina Aguilera e diversas outras artistas na época? Pois bem ou mal a peça voltou, agora com Bella Hadid, Anitta, Kim Kardashian e Beyoncé, entre outras. O uso da diminuta lingerie revela mais do que o corpo das celebridades: uma sociedade machista.

Poderia ser só mais uma onda de consumo de moda que sumiria com o passar da velocidade do tempo. Mas o fio dental, que por mais que tenha indícios que não veio para ficar, é um fator importante para trazer reflexões sobre o contexto social que se vive. Seria apenas uma ‘modinha passageira’ se a repercussão em torno da peça não fosse tão instigante diante dos comentários negativos para as mulheres que decidiram usá-la. Muitas pessoas marcaram o perfil das celebridades com frases de julgamentos opressores e machistas, mostrando, mais uma vez, como o corpo feminino ainda é um símbolo de objeto e controle social.

Segundo Fabio Mariano Borges, sociólogo especialista em comportamento de consumo e professor titular da ESPM, de São Paulo, o fio dental não é o causador da polêmica, mas, sim, a sociedade patriarcal. “O brasileiro tende a olhar para o corpo feminino, principalmente, sempre de forma sexualizada. E quando ele está exposto esse olhar ganha ainda mais interpretações sugestivas de ser um corpo à disposição e vulgarizado”, explica.

De acordo com Mirela Perez, figurinista e pesquisadora em semiótica aplicada ao feminino burlesco de São Paulo, “reviver essa tendência e transformá-la em artigo de luxo é uma maneira de questionar os tabus envolvendo o corpo feminino e o papel da moda na perpetuação desses estereótipos”. Entretanto, na visão de ambos os especialistas o produto não indica um movimento consciente e ativista do feminismo, mas que sim é um sinal de que as mulheres estão muito mais empoderadas de seu corpo. “Empoderamento é quando alguém pega aquilo que é tido como ruim e usa a seu favor, de um jeito protagonista e que gera, de certa forma, uma provocação ao que é normatizado”, reflete Fábio Mariano.

Enquanto Anitta e Kim Kardashian se sentem empoderadas e donas da própria história, corpo e voz, isso não é uma verdade para todas. Muitas mulheres ainda não se sentem à vontade em suas próprias ‘vestes’ de mulheres. Assim como a caixa de comentários opressores de mídias sociais delatam pessoas com discursos machistas, a sociedade revela a cada atitude de uma mulher um gatilho de julgamento e punição.

Não à toa, vivenciamos no último mês a exposição e humilhação da influenciadora Mari Ferrer, vítima de estupro, que, por não ter um comportamento e vestes adequadas diante da expectativa social, foi considerada culpada pelo crime que sofreu. “Enquanto o machismo articulado por homens vem de um lugar de privilégio, o feminino tem origem na culpa, censura e medo. A mulher é ensinada desde cedo a agir de determinada forma, a se vestir de determinada maneira para chamar a atenção e buscar a aprovação do público masculino”, sinaliza Mirela Perez. Infelizmente, nada de novo sob o sol, certo?

A pergunta que fica, ao ver esse enredo acontecendo em 2020, é “até quando peças como calcinha fio dental serão motivos para julgar e valorar uma mulher? Pois, a o fato é claro: a medida de valor para a ala masculina é bem diferente, não? Ou você já escutou algo agressivo e opressor quando Neymar e Justin Bieber saem por aí com suas cuecas à mostra, trazendo logos de marcas famosas gigantes? Ah, no caso deles é um comportamento de atitude e estilo. No caso das mulheres, é desprezível. Pelo jeito esta lógica só o machismo vai conseguir explicar para você. Seguimos!

Fonte: por Andreia Meneguete

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