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O dono de Pelé

A história de Fraga e Pelé abre a semana em que o Rei do Futebol completa 80 anos. Na próxima sexta-feira, dia 23 de outubro.

E se eu te contasse que Pelé, Rei do futebol, sagrado e histórico na memória dos brasileiros, não tem a palavra final em suas decisões?

É isso mesmo que você leu. Todos os assuntos que o envolvem, pelo menos comercialmente, são tratados pelo norte-americano Joe Fraga, CEO da Sports 10, empresa responsável pelos direitos de imagem do Rei desde 2009. A opinião de Pelé é sempre levada em consideração, mas a palavra final é de Fraga. Se não entram em consenso, o CEO pontua com uma visão aprofundada e indica o que acha melhor fazer.

“Desenvolvemos uma relação de trabalho fantástica. Sempre ouvirei, discutirei e respeitarei sua opinião e as recomendações sobre qualquer assunto que precisamos atender. Eu respeito e honro as decisões que tomamos, mesmo que eu tenha a palavra final”, explica Fraga ao UOL Esporte.

O empresário é um veterano da indústria de marketing e comunicação dos EUA e já trabalhou até com o ex-presidente dos EUA Bill Clinton. Ele costuma correr de reunião em reunião e tem longos debates com Pelé sobre negociações contratuais e participação em eventos e ações.

“Trabalhando junto é muito raro não chegarmos a um acordo e a um plano certo que seja melhor para ele e para a oportunidade que decidirmos aproveitar. Tenho sorte de ter Pepito (José Fornos Rodrigues, agente brasileiro de Pelé), Márcia (Aoki, mulher do ex-jogador) e às vezes a família dele me ajudando nesse processo. Entendo o quanto é importante manter nosso relacionamento com nossos parceiros, a mídia e nossos seguidores”.

A história de Fraga e de como o nome Pelé é negociado no mundo abre a semana em que o Rei do Futebol completa 80 anos. A festa está marcada para sexta-feira, dia 23 de outubro.

A venda dos direitos de imagem
Ao iniciar a apuração dessa matéria, a ideia do UOL Esporte era contar a história da cessão dos direitos de imagem de Pelé. Os empresários que trabalham diretamente com o Rei, jornalistas que cobriram Pelé nos anos 70 e 80 e historiadores ouvidos não souberam precisar uma data. Os primeiros indícios de que os direitos de Pelé para o exterior começaram a ser negociados são da época do Cosmos, equipe em que atuou 1975 que pertencia ao Grupo Warner.

Nas últimas duas décadas, estavam sob os cuidados da empresa brasileira Prime Licenciamentos, com contrato até 2025. Paul Kemsley, empresário com importantes passagens em seu currículo como a presidência do Cosmos e a vice-presidência do Tottenham, negociou a compra da Prime e unificou os direitos globais da marca Pelé em torno da Legends 10.

Em 2009, a Sports 10, que pertence a um grupo de investimentos internacional, assumiu os direitos globais do Rei, não somente o marketing e publicidade, mas também aparições públicas, eventos, licenciamento de produtos. É nessa empresa que Fraga trabalha. “O Sport 10 me pediu para administrar esse negócio para eles. É a empresa titular dos direitos de propriedade intelectual de Pelé e tem contrato de exclusividade com ele para a gestão do negócio”.

“Não tenho medo de dizer não”
Como é ser dono do nome do brasileiro mais conhecido no mundo? Joe Fraga recebe muitas propostas para produções com Pelé diariamente. A alta demanda, porém, não é o único motivo para Joe dizer não.

Além filtrar as pautas e organizar prioridades, o CEO também tem que analisar a saúde do Rei, a segurança nos eventos, o assunto que a produção aborda, se a participação será benéfica ao Rei…

Joe confessa não ligar muito para a imagem de rígido que passa aos jornalistas e explica por que não tem medo de dizer não.

“Faço questão de ter o bem estar de Pelé como prioridade em todos os negócios que decidimos fazer e em todos os eventos que participamos. Acredito que cuidamos bem dele, não tenho medo de dizer ‘não’ ou rejeitar qualquer coisa que não esteja alinhada com sua segurança ou saúde em primeiro lugar. Às vezes, recebo críticas por ser muito rígido ou não me curvar, mas acredito que as pessoas entendem que é o meu trabalho. Em última análise, respeitam o fato de que estou o protegendo”.

Joe conheceu Pelé no lançamento do novo Cosmos, em 2002. De lá para cá, foram muitas memórias marcantes. Entre elas, o primeiro encontro entre o Rei e o francês Kyllian Mbappé -campeão mundial com a França em 2018, com 18 anos, um a mais do que Pelé, campeão com o Brasil em 1958 aos 17.

O empresário explica que a situação foi uma realização profissional, principalmente quando sentiu a conexão entre os dois. O encontro foi feito para uma marca de relógios que, agora, tem os dois como garotos-propaganda. Além disso, pontuou um susto com a saúde do Rei no dia do evento.

“Foi a combinação perfeita de todas as emoções e ações possíveis. A oportunidade de usar tudo o que aprendi ao longo da minha carreira profissional. Me lembro da emoção de presenciar um momento incrível na história do esporte com os dois se encontrando pela primeira vez, vendo essa relação e conexão se desdobrar”, conta.

Pelé foi diagnosticado com pedras no rim logo após o evento. Na época, foi internado em Paris e preocupou os médicos por ser paciente de rim único—retirou o outro ainda na época em que atuava no Cosmos.

“Teve a visita de emergência ao hospital por causa da saúde. E gerenciar isso foi um susto. Tivemos que ficar dez dias a mais em Paris com ele no hospital. Teve a família, a equipe médica e a mídia até voltarmos ao Brasil com segurança. Aquela viagem teve de tudo. No fim, voltamos ao Brasil e ficamos mais três dias no [hospital Albert] Einstein, em São Paulo. Tudo correu bem”.

Superação com a tecnologia
Com a quarentena motivada pelo novo coronavírus, “um dos humanos mais icônicos do planeta”, como Joe define Pelé, não escapou da tecnologia para continuar produzindo conteúdo. Para suas redes sociais e para a imprensa. A dificuldade de um senhor de 79 anos entrar nesse mundo está sendo superado dia a dia.

Joe conta que, apesar dos novos parâmetros que o mundo recebeu, o fluxo de negócios melhorou na empresa graças à boa adaptação de Pelé. “Durante a pandemia eu tive que reinventar. Como avançamos para trabalhar dentro dos novos parâmetros que o mundo recebeu, não é fácil, mas conseguimos com mídias sociais, com [o aplicativo de teleconferências] Zoom e outras tecnologias fazer as coisas acontecerem”, diz.

Não deve ter sido fácil: em reportagem de 2018, o UOL mostrou como os herdeiros de Pelé que tentavam a sorte no futebol se relacionam com ele. E um deles, o filho Joshua, que então jogava nos EUA, revelou que o pai tinha difculdades com aplicativos de mensagem como WhatsApp —”Tentou Whatsapp, mas ficou um dia só. Fizemos um grupo e ele não conseguia responder todo mundo (risos)”, contou, em 2018.

“Obviamente, ele não está viajando. Após a breve parada que o mundo deu, conseguimos melhorar bastante em termos de fluxo de negócios. Em alguns aspectos, tentar manter-se atualizado por meio da tecnologia é ainda mais difícil do que nosso processo padrão pré-covid. Mas ele conseguiu se adaptar muito bem a essa nova forma de trabalho”, comenta.

Estou honrado por ter a oportunidade de trabalhar, não apenas com o melhor jogador da história, mas com um dos humanos mais icônicos do planeta. Cada dia traz uma nova oportunidade, um novo desafio e as vezes um novo problema para lidar

Joe Fraga
Joe Fraga foi convidado pela Sports 10 para recriar o projeto Rei do Futebol. Como empresário, ele foi responsável organizar amistosos de futebol internacionais nos EUA e participou da recriação do Cosmos, em Nova York, no início dos anos 2000. A aproximação por causa de ações como essa fez com que o ex-jogador o aceitasse com facilidade. A ideia era dar ainda mais amplitude ao legado de Pelé.

“Eu o conhecia e tinha trabalhado com ele no passado, então ele já sabia quem eu era. Quando surgiu a oportunidade de reescrever este projeto, fui chamado pelos detentores dos direitos para saber se teria interesse em aderir ao projeto e levá-lo para um nível melhor”, explica Joe.

Gerente da Sports 10 há aproximadamente três anos, Joe trabalha com futebol e também política, suas duas paixões. Já cuidou pessoalmente de um presidente dos EUA (Bill Clinton), e “um rei”, brincando sobre Pelé.

“Fui responsável pelo lançamento de um programa na ONU e também pelo relançamento do NY Cosmos. Em cada projeto em que trabalho, sempre tento conectar grupos que possam se beneficiar da parceria. Acredito muito na responsabilidade social corporativa. Também ensinei marketing esportivo e comunicação na Caldwell University em NJ. Tento ajudar meus ex-alunos sempre que posso”, finaliza.

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