Perfis de paródia se organizam em apoio a Bolsonaro e contra a imprensa
2019-02-18 14:23:49
Gobo News, Mônica Bengamo, Ual notícias, Vilma Russeffi. Trocadilhos com o nome de veículos de comunicação, jornalistas e políticos são usados como títulos para usuários de paródia no Twitter.

Porém, autodeclaradas “humorísticas” ou “satíricas”, essas contas divulgam notícias falsas entre postagens irônicas e críticas à imprensa. Ao longo de um mês, a Pública analisou 90 dessas contas e descobriu quem são os responsáveis e como se organizam na rede.

Criadas em sua maioria a partir de janeiro de 2018 – das 90 analisadas, apenas 12 foram criadas antes dessa data –, as contas satíricas ganharam visibilidade no início do ano, quando a Folha de S.Paulo (a verdadeira, não a sátira) denunciou a confusão causada pelas paródias na rede, em matéria publicada no dia 5 de janeiro.

Na ocasião, uma postagem de um perfil de sátira da jornalista Mônica Bergamo precisou ser desmentida, pois usuários não haviam compreendido que se tratava de uma paródia. O post dizia o seguinte, imitando o tom sério usado pela jornalista: “O PT entrou com uma liminar pedindo a anulação do projeto do Bolsonaro com Israel para acabar com a seca no Nordeste. ‘A seca no Nordeste é cultural, quase um patrimônio, não deve ser destruída’, disse Gleisi Hoffmann”. Posteriormente, o tweet foi excluído.

A presidente do PT foi a público esclarecer que não disse tal afirmação. A jornalista satirizada também se pronunciou. “Tentam usar a credibilidade de nosso trabalho jornalístico para enganar as pessoas. Dizem ser paródia quando na verdade disseminam infos falsas”, publicou em seu perfil oficial no dia 4 de janeiro.

A confusão se deu porque a conta responsável pela postagem utilizava nome de usuário (@MonicaBengamo, com “N”), foto de perfil e texto muito parecidos aos do Twitter oficial da jornalista Mônica Bergamo.

Além disso, a sátira simulava o símbolo de perfil autenticado no Twitter, usando o emoji de um furacão. A matéria da Folha mostrou outras contas que se utilizavam de estratégias parecidas, como a @STFoficianal, que ironizava postagens oficiais do STF, entre outras.

Muitas delas se diziam filiadas a um perfil chamado “Central da Imprensa Satírica Brasileira”, ou CIS, que retuitava suas publicações.

A reação das sátiras
Após as denúncias, o Twitter excluiu mais de 20 contas de paródia. Como resposta, os perfis satíricos se uniram em torno da hashtag #SátiraNãoÉFake, criticando o que chamaram de censura do Twitter. Muitas das contas deletadas criaram novos perfis e contas reservas, se precavendo para o caso de novas exclusões.

A hashtag chegou aos Trend Topics (assuntos mais comentados) do Twitter no Brasil entre os dias 4 e 8 de janeiro. Ela foi publicada 19.400 vezes, por 11 mil usuários diferentes, conforme análise enviada pela pesquisadora digital Luiza Bandeira, da organização Atlantic Council, à Pública.

Dessas publicações, 77,4% foram retuítes, ou seja, republicações de postagens – um número um pouco acima da média para a rede, mas sem indício de robotização, segundo Bandeira.

Para a pesquisadora, o que ocorreu foi uma coordenação, não uma automação. “Ela [a repercussão da hashtag] é orgânica, mas tem alguém que fala ‘ai vamos subir isso?’ É como um comportamento de fã, tipo um fã clube de um cantor.”

O relatório de Luiza ainda mostra que o tuíte mais compartilhado que usava a #SátiraNãoÉFake foi a do cantor Lobão, artista popular entre eleitores de direita e ultradireita, que tem alavancado muitas hashtags no Twitter. A postagem teve 1.700 retuítes e foi publicada no dia 5 de janeiro, logo após a reportagem da Folha.
Fonte: Exame
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