Lazer online para crianças precisa de supervisão
2019-01-22 09:39:15
Quem convive com crianças sabe que, em algum período do dia – ou da noite –, elas estarão ali, mesmo que minimamente, conectadas. Seja por meio do smartphone, do tablet ou do computador, é cada vez mais comum vê-las concentradas na tela, quer em casa ou fora dela. Nas férias, então, está entre as diversões preferidas.

As crianças brasileiras, por exemplo, são as que mais ficam on-line, passando em média 18,3 horas por semana na web. A conclusão faz parte de um estudo publicado no ano passado, que envolveu mais de 7 mil adultos e 2,8 mil crianças e adolescentes, com idades entre 8 e 17 anos, em 14 países. O objetivo era examinar o comportamento e a experiência on-line das crianças e dos adolescentes em comparação com o conhecimento e entendimento dos mesmos pelos pais. O relatório destaca os principais contrastes e desconexões entre os pais e seus filhos e oferece conselhos e orientação para os responsáveis sobre como preencher as lacunas.

O levantamento constata que as crianças estão passando cada vez mais tempo on-line e, de maneira geral, os pais estão cientes disso e têm uma boa ideia das principais atividades que seus filhos realizam. Os pais estão preocupados se seus filhos estão acessando material impróprio ou distribuindo informações pessoais on-line, mas ainda subestimam o quanto seus filhos baixam jogos, músicas e vídeos pela internet. Essas são atividades-chave que podem expor as crianças a conteúdo inadequado e incentivá-las a divulgar seus detalhes pessoais.

A boa notícia é que as crianças querem, de fato, um envolvimento maior de seus pais em suas vidas on-line. A maioria afirma que gostaria de conversar com seus pais, pedindo ajuda e conselhos quando as coisas dão errado.

A pluralidade de plataformas e opções de entretenimento a qualquer hora do dia deixam a vida dos pais gradativamente mais difícil. Para ajudar, a reportagem ouviu especialistas da área a fim de indicar desenhos que unem entretenimento e conteúdo educativo.

IDENTIFICAÇÃO

A regra geral é permitir que a criança se identifique com o personagem, abordando temas do cotidiano, como a relação com os pais e com os irmãos, além de contemplar sentimentos que fazem parte do crescer, como o medo, a raiva e o ciúme. É importante que a obra mostre como a criança pode lidar com as situações adversas de uma forma saudável e não violenta.

Um dos desenhos que a psicanalista Ana Olmos, especializada em crianças e adolescentes, sugere é a animação de coprodução americana e britânica “Charlie e Lola”. No desenho de traços simples, Charlie, 7 anos, usa imaginação e paciência para cuidar da irmã Lola, 4 anos. A série tem episódios no YouTube.
“Há valores como amizade, cooperação, a importância de vínculos e da diversidade. Ela instiga a curiosidade nas crianças para enfrentar conflitos de forma coletiva”, diz Ana.

Para Beth Carmona, consultora de canais de TV e diretora-geral da ComKids, promotora e produtora de conteúdos digitais para crianças e adolescentes, é importante evitar personagens estereotipados e buscar conteúdo com diversidade.

Nessa linha, ela cita protagonistas femininas e inteligentes. Como “Dora, a Aventureira”, menina de origem latina que vive aventuras em que mistura o inglês e o português. “Ela é baixinha, gordinha e uma heroína”, descreve Carmona.

Outro exemplo é o “Show da Luna”, produção brasileira que foi recomendada por todos os especialistas ouvidos pela reportagem. O desenho mostra uma garota de 6 anos que adora ciências. “A Luna tem sempre a preocupação de trazer o irmão mais novo, o Júpiter, para a brincadeira. Esse tipo de comportamento saudável dos personagens em família é que tentamos mostrar”, diz Kiko Mistrorigo, um dos fundadores da TV Pinguim, produtora do desenho. Para ele, a tela deve ser compartilhada em família. “Os pais só podem saber se o desenho é bom se eles mesmos curtirem aquela experiência.”

E é justamente este compartilhamento que acontece na família da economista e professora da UFMS Christiane Marques Pitaluga, mãe de Arissa Pitaluga Miguita, de 8 anos, e Naomi Pitaluga Miguita, de 6.  “Eu e meu marido temos grande preocupação com o conteúdo que elas assistem. Em função do avanço da tecnologia, tivemos que nos adaptar e monitorar. Deixamos separados somente desenhos e historinhas de bonecas, os preferidos delas. Mas eu e o pai temos o hábito de assistir, saber do que se trata e, mesmo tendo a classificação, primeiro assistimos para depois disponibilizar”.

A consultora Beth Carmona recomenda aos pais que aproveitem o momento para conversar com a criança. “As animações são uma boa forma de introduzir aos pequenos assuntos sobre os quais, muitas vezes, os pais não se sentem à vontade para falar, como a questão do bullying. Parte do papel da produção infantil é ajudar a criança a entender e extravasar seus sentimentos”.

Carmona defende também a importância de se prestar atenção à recomendação de faixa etária da produção. Outro sinal de alerta para os pais está relacionado à publicidade infantil. Embora o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) tenha endurecido as regras para os anúncios direcionados às crianças em 2013, críticos avaliam que os parâmetros brasileiros ainda são permissivos.

Entre as normas vigentes, estão a proibição de uso de objetos do mundo infantil nos anúncios e frases do tipo “peça ao seu pai”. “A criança não tem desenvolvimento cognitivo e percepção para julgar o que está sendo exibido diante dela e diferenciar aquilo do desenho ou programa em si. Ela acaba refém da peça publicitária. São anúncios que, muitas vezes, afetam a autoestima da criança”, diz Ana Olmos.
Os pais de Sarah Neves Pereira Matheussi, 7 anos, e Murilo, 2, também ficam atentos ao que as crianças consomem on-line. “Nós nos preocupamos que elas tenham acesso apenas à produção direcionada à faixa etária em que se encontram. Recentemente baixamos o YouTube Kids para a Sarah e ali ela acessa desenhos e youtubers com exemplos educativos, como o ‘Canal da Lele’. Para o Murilo, a seleção é mais musical, e ele gosta do ‘ABC Kids’, da ‘Galinha Pintadinha’ e da ‘Pantera Cor-de-Rosa”, explica a mãe, a psicóloga Aldine Neves Pereira Matheussi.

Ambas as famílias optam por estipular tempo de uso da tecnologia. “Aqui em casa é proibido acesso à TV ou qualquer outro aparelho pela manhã. À tarde, estudam e, quando chegam em casa, vão fazer tarefa. Caso sobre tempo, a gente libera e também aos finais de semana, entre  atividades que fazemos em família”, explica Christiane. 

“Nas férias, o tempo é mais flexível, porém, sempre supervisionado. Durante as aulas, apenas nos finais de semana”, conta Aldine.

Lei impulsionou desenhos brasileiros

 A produção de desenhos animados no Brasil cresceu nos últimos anos, movimento atribuído, em boa parte, à lei 12.485, sancionada em 2011, que estabeleceu cotas obrigatórias de 3 horas e 30 minutos por semana de programação brasileira nos canais de TV por assinatura. Para Kiko Mistrorigo, da produtora TV Pinguim, a cota na TV paga permitiu que a produção brasileira chegasse ao nível das produções internacionais. “Existe muito critério para se chegar no produto final que é exibido na Disney ou no Discovery”.

Na contramão da maior produção nacional, o espaço destinado aos programas infantis na televisão aberta diminuiu. As principais emissoras de desenhos são os canais educativos públicos Cultura e TV Brasil.
Fonte: CE/Folhapress
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