Disputa por terra: asilo de Porto Alegre e família quilombola protagonizam impasse
2018-11-16 14:20:10
O Asilo Padre Cacique e o Quilombo Gonçalves de Lemos protagonizam um impasse que já dura 10 anos envolvendo a disputa por um terreno em Porto Alegre. Na última semana, a primeira tentativa de reintegração de posse, com o objetivo de retirar as mais de 30 pessoas que vivem no local atualmente, trouxe o caso à tona.

O pedido de desocupação do pedaço de terra, localizado nos fundos do número 1.250 da Avenida Padre Cacique, local próximo ao prédio onde funciona o asilo, foi levado à Justiça em 2009 por parte da Sociedade Humanitária Padre Cacique, alegando ser dona da propriedade. Constam como réus no processo Délzia Gonçalves de Lemos, já falecida, e outros oito familiares dela.

Desde a década de 1960 até sua morte, Délzia viveu em uma casa construída no terreno em questão ao lado do marido Jorge Alberto Rocha Lemos, que também já morreu. Durante o mesmo período, o casal trabalhou na instituição, que hoje atende mais de 100 idosos, fazendo serviços gerais. Com o passar dos anos, a família foi aumentando. Atualmente, a segunda, a terceira e a quarta geração da Gonçalves de Lemos vivem no espaço, onde foram erguidas quatro moradias.

O advogado que representa o asilo, Artur Garrastazu, alega que, quando Jorge começou a trabalhar na instituição, a casa foi oferecida ao funcionário para que a ocupasse enquanto durasse o vínculo empregatício. Segundo o advogado, a residência já estava construída desde que a Sociedade Humanitária Padre Cacique adquiriu o terreno “há muitos anos”.

Já o advogado Onir Araújo, que representa a família, defende que não havia nada no terreno na época em que Jorge começou a trabalhar no asilo. “Esse terreno nunca foi do asilo, era ‘terra de ninguém’, e quem deu alguma função social a esse terreno foi o casal Jorge e Délzia”, argumenta Onir.

O advogado conta que Délzia era neta de escravos e, antes de se mudar para a capital, vivia em Encruzilhada do Sul, no Vale do Rio Pardo. Segundo ele, Délzia e o marido, que também era de fora de Porto Alegre, fixaram moradia, inicialmente, no bairro Lomba do Pinheiro. Foi então que os dois começaram a trabalhar no asilo e, para chegar ao local, passavam por um matagal que ficava nos fundos na instituição. De acordo com a defesa, o próprio Jorge foi quem comprou os materiais de construção à época e construiu a casa para morar com a esposa no terreno que era inutilizado.
Fonte: G1
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