Dos vídeos de 1 hora do Instagram: as redes cada vez mais iguais entre si
2018-06-26 14:44:57
?Resolvemos focar em fotos para as pessoas se lembrarem do app quando forem compartilhar imagens, criando uma comunidade em torno disso. E para não concorrermos com e nem ficarmos iguais a todos os outros. Queremos ser únicos?. Quem me disse essa frase foi Mike Krieger, o brasileiro cofundador do Instagram ? e personagem principal do livro O Clique de 1 Bilhão de Dólares (Intrínseca), de minha autoria. Mas isso no início de 2010, antes de sua empresa ser vendida ao Facebook.

Desde então, o Instagram incorporou vídeos curtos, anúncios e foi na onda do próprio Facebook e de rivais ao lançar uma penca de novidades que, na prática, simulavam o que outros já faziam. Hoje, não se restringe apenas às fotos.

Com o Stories, consagrou um formato tão parecido (mas, convenhamos, melhor executado) com o apresentado antes pelo Snapchat. No IGTV, que estreou na semana passada, se compartilham vídeos longos, de até 1 hora. Alguém aí notou a semelhança com o YouTube?

No ano passado, em nova conversa com Mike (rendeu esta entrevista em VEJA), ele explicou o motivo de o Instagram ter mudado de rumo, simulando alguns recursos de seus rivais diretos. A justificativa vai na linha ?um corre atrás do outro?. A ideia é sempre se manter atual para sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo e no qual parece que, com o passar dos anos (vide o MySpace; ou, no Brasil, o Orkut), é dificílimo não morrer.

Mais que isso, não duvido que em poucas décadas a internet seja resumida, ao menos àquela parcela do público de curiosidade limitada (e aí se encaixam a maioria dos seres humanos), ao uso de uma ou outra rede social. A muitos, o Facebook já se resume hoje (acredite!) ao que se consome online. Isso pode se intensificar, num cenário no qual só existirão dois ou três apps / sites com tal foco social. Quem não for um desses dois ou três? desaparecerá.

Quem sobreviverá? Aquelas redes sociais all inclusive, pelas quais se pode fazer tudo e qualquer coisa. Seja conferir fotos, ou vídeos, ou textos, ou música, ou imersões em realidade virtual. E o Instagram, que já superou a preferência dentre jovens na disputa com o pai Facebook, ambiciona, evidentemente, ser um desses dois ou três.

A estratégia de mercado faz total sentido. Se o mundo se configurar como o descrito acima, o Instagram passa a ser o Facebook (quiçá juntando funcionalidades do YouTube) do futuro breve. Caso a aposta se prove errada e prevaleçam muitas opções de apps e sites, cada um com seu público de nicho, o Instagram ainda assim sobreviverá forte, provavelmente liderando uma múltipla indústria.

Contudo, para os usuários, o primeiro cenário não reluz. O efeito de ter uma dupla de redes sociais competindo pela atenção do planeta levará a um tipo de atrofiamento intelectual em massa da humanidade.

As consequências negativas seriam muitas. Já falei delas tantas vezes neste espaço que, àqueles interessados, convido à leitura de textos anteriores acerca do tópico. Porém, resumirei em algumas palavras. Limitar as fronteiras dos navegantes virtuais a apenas um espaço, seja o Facebook, ou Instagram, ou o YouTube, restringirá (extremamente) a visão de mundo dos mesmos.

As pessoas se fecharão em bolhas quase impenetráveis, com paredes formadas por opiniões e ideias, dentro de seus pequenos universos conectados. Fake news se espalharão facilmente, visto que não haverá a devida competição, em pé de igualdade, entre as plataformas de conteúdo; o que aparecer na líder dentre estas ? ou mesmo única sobrevivente ? valerá como verdade absoluta à parcela maior da plateia (já é meio que assim mesmo com o Facebook, não?). Será disseminado o vício na solitária rede social a sobrar. E por aí vai.

Por fim, dependeremos apenas de uma empresa para servir de ponte entre nós. E a história nos mostra que em nada é bom quando uma só entidade (governamental ou privada) acaba por tomar o controle, num monopólio.

Ah, é claro, e o mundo ficará demasiadamente chato.

Há poucos anos tínhamos tantas formas de nos comunicar pela internet. Se quiséssemos falar de um assunto específico, recorríamos a um fórum. Caso a proposta fosse compartilhar fotos, tinha o Instagram. Para consumir vídeos, o YouTube. Para escrever mensagens rápidas, de tom noticioso, o Twitter era o ideal. E o Facebook entrava no bolo como o meio perfeito para reencontrar amigos das antigas, falar com uma tia distante, coisa do gênero. No MySpace, explorávamos principalmente as novas produção de artistas (em especial, músicos).

A internet se mostrava, há tão pouco tempo, diversa. Mais do que a vida real. Esse era um enorme (talvez, o maior) atrativo.

Hoje, no entanto, caminha-se para o contrário. Por que ao se acessar um Facebook, ou um Instagram, ou um Twitter, tudo o que está rolando nos mesmos parece repeteco? Por esse ?tudo? ser igual entre si, mesmo.

Quais seriam hoje as diferenças práticas de uma plataforma dessa linha para a outra? Na real, praticamente não há.

E qual será o fim dessa história? Será que, com essa onda de contínua imitação, a internet se restringirá um dia a um único tipo de rede, pela qual se compartilharão posts, enquanto se vê o streaming de uma nova série de comédia by Facebook (ou Netflix), esperando pelo próximo vídeo de uma festa de um amigo, ao mesmo tempo em que se tenta manter informado por meio de fake news disseminadas pelos amiguinhos que acham que um blog qualquer lançado ontem é mais honesto do que empreitadas jornalísticas de mais de um século de história de credibilidade? Recebendo essas tantas informações em rapidez maior do que a falta de fôlego da frase anterior.

Se assim se configurar a realidade (virtual ou física), quando alguém finalmente começar a refletir sobre um post, ou uma notícia, vista por aí? ?Bommmmm dia, família?, logo algum outro já interromperá o raciocínio com uma mensagem inoportuna enviada pelo mesmo meio no qual se tentava refletir sobre aquela coisa da qual já se esqueceu do que se tratava. Não entendeu? Nada? Pois é assim mesmo que será: ninguém entenderá nada nesse distópico futuro de estilo Black Mirror.
Fonte: Veja
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