Como funciona a indústria de novelas infantis do SBT
2018-04-14 14:23:55
Reportagem da edição de VEJA desta semana mostra como funciona por dentro a indústria de novelinhas infantis do SBT. Com a desinibição de quem cresceu nos estúdios da TV, Maisa Silva gasta a tarde num périplo pela emissora de Silvio Santos. Na pele de Juju Almeida, personagem que mantém um vlog (diário em vídeo) na novela Carinha de Anjo — transmutado em popularíssimo canal no YouTube —, Maisa invade a gravação do humorístico A Praça É Nossa. Sobe ao palco de Eliana para dar uma tietada. Faz uma entrevista cheia de micagens com Danilo Gentili. É uma jovem exercitando o beija-mão despudorado de veteranos da TV? Errado. É uma jovem emprestando seu prestígio aos mais velhos. Maisa integra a nova categoria que tem feito a alegria do patrão Silvio: as estrelinhas das novelas infantis do SBT. Além de Maisa, de 15 anos, essa indústria produz celebridades como Lorena Queiroz, de 7 anos, Sophia Valverde, de 12 — e, claro, a mais onipresente e bem-sucedida de todas: Larissa Manoela, de 17.

Com suas novelinhas, o SBT cevou uma audiência estável acima de 10 pontos, enquanto a Record vive altos e baixos com suas produções bíblicas. Graças ao trunfo no horário nobre, já faz coisa de um ano que o SBT retomou o segundo lugar na TV brasileira, que havia perdido para a rival no fim da década passada. Quinze milhões de crianças e adultos são impactados por essas novelinhas. Mas é na internet que se percebe o pulo do gato. Carinha de Anjo caminha para a marca espantosa de 1,4 bilhão (sim, bilhão) de visualizações e 3,4 milhões de seguidores no YouTube. Há outros 39 milhões de vídeos vistos e 1,4 milhão de inscritos no Vlog da Juju. Estrelada por Sophia Valverde e Larissa Manoela, a nova trama da casa, As Aventuras de Poliana, já teve lançados produtos como a boneca da protagonista meses antes da estreia, na segunda quinzena de maio.

Para contrabalançar a ternura dessas tramas, há piscadelas para a geração conectada. Os clipes são o momento mais aguardado. Às vezes, há mais de um a cada capítulo, e essas pílulas musicais reverberam ad infinitum na internet. O Rap da Água, em que a Juju de Carinha de Anjo dá uma de militante ecológica, tem quase 20 milhões de visualizações. Os clipes também atendem a um imperativo da produção: esticar as tramas ao máximo. Com seus 390 capítulos, Carinha de Anjo é duas vezes mais longa que as atuais novelas das 9 da Globo — ainda que perca para os 545 capítulos de Chiquititas. A nova Poliana poderá igualar o feito: ficará no ar por dois anos. “Isso dilui os custos e aumenta o faturamento”, diz Boury. Cada capítulo sai por 280 000 reais, três vezes menos do que a Record torra nos novelões bíblicos. Boury explica a feitiçaria: “Alguns clipes são repetidos umas vinte vezes na novela. As crianças param o que estão fazendo e correm para a TV”.

Das estrelas das novelas, só Larissa e Maisa têm contratos longos, até o fim de 2019. Segundo fontes da TV, Larissa ganha na faixa de 45 000 reais por mês, com direito a folga nos sábados. Já houve flertes com a Globo, mas ela desconversa. “O futuro a Deus pertence. Mas a gente deixa as portas abertas”, diz. Maisa ganha metade disso, porém está crescendo. “Ela é a cara do SBT, e faz uma dupla impagável com Silvio Santos”, afirma Marcia Ítalo. A emissora planeja criar um talk-show para ela na internet. “Não adianta só ter vontade ou dom. A gente tem de ser um mix de tudo”, ensina Maisa.
Fonte: Veja
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