Cineasta sul-matogrossense Aaron Salles Torres lança primeiro longa-metragem
2017-11-08 11:47:31
Nascido em Três Lagoas em 1983, o cineasta Aaron Salles Torres tem muitas histórias para contar. Filho de pai advogado e mãe escritora, em suas veias corre o sangue dos Garcia Leal, família que colonizou o estado de Mato Grosso do Sul. A primeira cidade fundada por eles, Paranaíba, serviu como bastião para as forças brasileiras durante a guerra do Paraguai.

As narrativas de família contadas por sua mãe e avó foram os pontos de partida para os primeiros escritos, aos nove anos de idade. "Histórias reais me inspiram. Digeri-las, registrá-las e recontá-las ao grande público é o que me move, passando adiante a mensagem e a reflexão que essas narrativas trazem", comenta Aaron. Nessa mesma época, o jovem iniciava os primeiros experimentos com cinema, junto com dois irmãos. "Acordávamos às 5 da manhã de um sábado ou domingo e no fim do dia tínhamos um ‘filme’ pronto", completa.

A consolidação do sonho de ser cineasta aconteceu aos 19 anos. Aaron ingressou na School of the Art Institute of Chicago (SAIC), a mais conceituada universidade de Belas Artes dos Estados Unidos. Por lá passaram Orson Wells, Walt Disney e outros importantes cineastas. Foram 10 anos vivendo nos Estados Unidos, onde produziu quatro curtas-metragens, recebeu quatro vezes o Premio de Liderança, dirigiu vídeos institucionais e fez um MBA em Comunicação Integrada de Marketing pela Loyola University Chicago. Ao retornar para o Brasil, em 2011, começou a trabalhar na Conspiração Filmes. Entre as produções em que se envolveu, destacaram-se a série e o filme "Vai que Cola" (desde 2013) e o longa "Rio, Eu Te Amo" (2014). Mas os projetos autorais começaram a ganhar corpo com a criação de sua própria produtora, a Georgois Filmes. Publicou dois romances, "Debruçou-se" (2009) e "Dissecado" (2012), e além de "Quando o Galo Cantar Pela Terceira Vez Renegarás Tua Mãe", está desenvolvendo mais três histórias: um longa de terror inspirado em histórias verídicas passadas em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, durante a construção da Usina Hidrelétrica do Jupiá, um sobre o aplicativo de encontros Grindr ambientado no Rio de Janeiro – cidade conhecida por ser uma das capitais "gay friendly" do mundo-, e uma série para TV sobre o serial killer Axeman of New Orleans.

O primeiro longa-metragem

Uma explosiva relação familiar é o ponto de partida de "Quando o Galo Cantar Pela Terceira Vez Renegarás Tua Mãe", primeiro longa-metragem de Aaron Salles Torres com distribuição da Elo Company e estreia marcada para o dia 23 de novembro. A frase de Clarice Lispector no conto "Feliz Aniversário" – em subversão à história bíblica de Pedro, que diz não conhecer Jesus – o titulo antecipa a narrativa fragmentada e recheada de mistérios, que explora a conturbada convivência de Zaira (Catarina Abdalla), uma mulher ressentida, e Inácio (Fernando Alves Pinto), seu filho esquizofrênico funcional e homossexual. Ele trabalha como porteiro no edifício onde vivem, na zona sul do Rio de Janeiro. Ela é dona de casa e teve que deixar suas costuras de lado para tomar conta do filho, que sempre demandou muita atenção, e agora também precisa cuidar do marido Guilherme que, mais velho do que ela, está muito doente. Sua única companhia é um galo, que mora em cima da pia da cozinha.

O clima de tensão entre Zaira e Inácio piora após a morte de Guilherme, que trabalhava como zelador no prédio há quarenta anos, garantindo assim o direito da família morar ali. A obsessão de Inácio por um morador se torna perigosa e o rancor de Zaira passa a se direcionar ao filho, por ele não conseguir assumir a função do pai e manter o apartamento da família. Mãe e filho vão à loucura e se tornam capazes de atos impensáveis.

O thriller psicológico é inspirado em personagens reais, vizinhos de prédio do diretor. "Escutei aquelas discussões do meu apartamento. Por isso demorei três anos para escrever o roteiro, foi muito difícil me distanciar daquilo", conta Aaron. O longa trata de temas delicados, como esquizofrenia, violência contra a mulher, aceitação de um filho gay e o despreparo do estado em assistir pessoas como essas. "Eu também quis falar sobre os marginalizados, seres invisíveis e ao mesmo tempo tão reais e presentes em nossa sociedade", completa o cineasta.

Tema da obra, a canção "Perigos Razões" (assista aqui) é interpretada por Ney Matogrosso, que se transforma no personagem Inácio. A letra foi composta por Aaron Salles Torres, dando voz ao personagem de Fernando Alves Pinto, que pela primeira vez consegue se expressar.


Fonte: DA
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