Nobres se inspirou em Bonito para mostrar suas belezas
2017-09-12 08:24:50

Doze anos atrás, quando percorri o Estado do Mato Grosso em
uma viagem de ônibus por algumas de suas principais atrações, meu
celular era apenas um acessório, que passou quase o tempo todo dentro da
mochila. Além de não pegar na grande maioria dos lugares, conexão com a
internet ainda era coisa para lan houses ou salas de informática – um
luxo raro, especialmente em viagens com a natureza como protagonista. Em
casos assim, a ideia era de isolamento total, algo cada vez mais
difícil nos dias de hoje. 


Desta vez, embora
ainda não haja conexão em áreas mais afastadas – como o Parque Nacional
da Chapada dos Guimarães, ou mesmo nas ruas do distrito de Bom Jardim,
em Nobres
–, pousadas, hotéis e mesmo alguns restaurantes oferecem Wi-Fi grátis. A
sensação de isolamento se restringe apenas aos passeios. Depois deles,
todos pegam seus smartphones para postar o mais rápido possível as fotos
e vídeos feitos ao longo do dia, como eu mesma fiz no Instagram
@viagemestadao durante a viagem. 




Repare na quantidade de peixes no poço da cachoeira Serra Azul, em Nobres


Repare na quantidade de peixes no poço da cachoeira Serra Azul, em Nobres Foto: Adriana Moreira/Estadão






Logicamente, esta não foi a única diferença que encontrei na
região depois de tantos anos. Algumas são positivas, como a inauguração
do primeiro resort do Estado, localizado entre as já citadas Chapada dos
Guimarães e Nobres. Assim, ficou mais fácil intercalar bate-voltas
focados em ecoturismo com dias mais relaxados, que incluem drinques à
beira da piscina e refeições caprichadas, tudo no sistema all-inclusive.
No rol das boas notícias também está a estrada para Nobres, que era de
terra e hoje está asfaltada e bem sinalizada, o que permite que a viagem
a partir de Cuiabá seja feita em apenas 2 horas.



Mas dói ver a quantidade de obras que deveriam ter sido concluídas para a Copa do Mundo,
como a do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), na capital, e a entrada do
Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. O problema das queimadas na
região do parque também continua, especialmente nessa época do ano, com
pouca chuva e mato seco. Da estrada, vimos um imenso rastro de
destruição e labaredas que consumiam quilômetros de vegetação –
felizmente, o incêndio já foi controlado.




Pôr do sol na estrada


Pôr do sol na estrada Foto: Adriana Moreira/Estadão





O saldo, contudo, é positivo. O clima ensolarado quase o ano
todo harmoniza perfeitamente com praias de cachoeira e flutuação em rios
de águas cristalinas, repletos de peixes. Aproveite antes que as
multidões descubram. 

Copa deixou legado de obras paradas


O aeroporto de Cuiabá está bonito, renovado, pronto
para os turistas. Mas basta sair de lá para se deparar com uma sucessão
de obras que deveriam ter sido inaugurados para a Copa de 2014 e ficaram
paradas por problemas em contratos e irregularidades. Algumas chegaram a
ser retomadas e interrompidas novamente, como a do Veículo Leve sobre
Trilhos (VLT), cuja licitação está sendo investigada pela Polícia
Federal por suspeita de fraude. O governo agora estuda uma solução para a
retomada das obras, ainda sem prazo de conclusão.


 A entrada do Parque Nacional da Chapada dos
Guimarães, em 2005, era por um restaurante, bem próximo ao mirante para a
famosa cachoeira Véu da Noiva. A nova portaria, prometida para a Copa,
também não saiu. O que se vê no local são tapumes e um contêiner, que
serve de base para quem está cuidando da portaria. Segundo informou a
Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec) do Estado, a empresa
contratada abandonou a obra, e uma nova licitação deverá ser feita em
breve. A ideia é que as obras sejam retomadas em até 60 dias.

A essência de Nobres em cinco passeios

Qualquer semelhança não é mera coincidência: a
cidade usou Bonito (MS) como referência para promover seus encantos,
como a flutuação em rios cristalinos






Poço da cachoeira Serra Azul, em Nobres, é repleto de peixes


Poço da cachoeira Serra Azul, em Nobres, é repleto de peixes Foto: Adriana Moreira/Estadão





Rios de águas cristalinas perfeitos para flutuação, repletos de peixinhos, peixões e arraias, são o cartão-postal de Nobres.
Com atrativos similares aos de Bonito, no Estado vizinho do Mato Grosso
do Sul, a cidade “importou” de lá o modelo de visitação aos seus
principais pontos turísticos. 



O visitante precisa ir a alguma das agências locais para
adquirir o voucher que será apresentado nas atrações – não é possível
comprar na entrada e os preços são tabelados. A ideia, dessa forma, é
movimentar toda a cadeia do turismo local, como explica Vicente Campos,
dono da agência Anaconda e representante do Conselho Municipal de
Turismo. Com o voucher, é possível ter um controle para que não seja
ultrapassada a capacidade de carga nas atrações. Além disso, são
recolhidos 1% para o Fundo de Turismo (Futur) municipal e 3% de ISS. 



A maior parte dos atrativos se concentra no distrito de Bom Jardim
(ou na vizinha Rosário), que também serve de ponto de apoio. Há doze
anos, a infraestrutura turística ali era quase inexistente. Embora
algumas atrações, como o Aquário Encantado, já recebesse visitas, não
havia pousadas (a hospedagem se concentrava em casas de família) ou
restaurantes. 


Hoje, ainda se trata de um destino rústico, com ruas de terra e
imóveis simples, mas a mudança é evidente. Segundo Vicente, já são 14
pousadas, 7 restaurantes e 12 agências de turismo, que vendem 25
atrações turísticas.


A flutuação é o carro-chefe, mas há outros programas. Para não
comprometer as nascentes, protetor solar e repelente costumam ser
proibidos: deixe para passar ao sair das atrações. Fique atento nas
estradas: é comum avistar emas, tucanos e outros animais silvestres.


CACHOEIRA SERRA AZUL




Cachoeira Serra Azul, em Nobres


Cachoeira Serra Azul, em Nobres Foto: Adriana Moreira/Estadão





Fica dentro da propriedade adquirida pelo Sesc, cujo potencial
ainda vem sendo mapeado. A cachoeira é uma das atrações abertas ao
público – para chegar a ela, no entanto, é preciso enfrentar 800 metros
de escadaria antes de conseguir a recompensa: flutuar no poço de águas
cristalinas, com aproximadamente 6 metros de profundidade. Colete
salva-vidas, máscara e snorkel estão incluídos: você vai precisar deles
para observar as dezenas de piraputangas que circulam por ali. Elas não
caíram da cascata de 46 metros de altura nem foram colocadas ali:
simplesmente subiram o rio. Para voltar, dispense a escada: a tirolesa
de 700 metros de extensão oferece emoção na medida certa. Preços: R$ 70
(flutuação) ou R$ 105 (com tirolesa).


FLUTUAÇÃO NO RIO TRISTE




Flutuação no Rio Triste, em Nobres


Flutuação no Rio Triste, em Nobres Foto: Adriana Moreira/Estadão





De triste, só mesmo o nome do rio: a flutuação ali é só
alegria. São cerca de 1.500 metros por águas rasas, em que não é preciso
fazer nada além de se deixar levar pela correnteza. Aliás, quanto menos
movimento, melhor para a visibilidade: além das fáceis piraputangas, dá
para ver dourados e até as arraias. Na nossa visita, no entanto, elas
estavam bem escondidas: apenas uma, pequenininha, deu as caras. Preço:
R$ 75. 


FLUTUAÇÃO NO AQUÁRIO ENCANTADO




Piraputangas, figurinhas fáceis nos rios de Nobres


Piraputangas, figurinhas fáceis nos rios de Nobres Foto: Adriana Moreira/Estadão





Localizado no Rio Salobra, o Aquário Encantado se destaca por
seu poço de seis metros de profundidade, por onde brota a água
cristalina, repleta de peixes. Depois de nadar ali por alguns minutos,
os turistas partem para a flutuação no Rio Salobra. Preço: R$ 75. No
local, serve-se almoço em sistema bufê, simples e caseiro, pago à parte.


LAGOA DAS ARARAS




Lagoa das Araras, em Nobres: aves se refugiam ali no fim de tarde


Lagoa das Araras, em Nobres: aves se refugiam ali no fim de tarde Foto: Adriana Moreira/Estadão





Mais próxima ao centro de Bom Jardim, a Lagoa das Araras é
exatamente o que o nome diz: um alagado repleto de buritis para onde, no
fim da tarde, diversas espécies de aves vêm se aninhar. As araras estão
lá, como promete a atração, mas há também garças, biguás, maritacas,
periquitos e até um gavião esperando um pássaro se distrair para atacar
os ninhos. Chegue por volta das 17 horas, besuntado de repelente. Preço: R$ 15.


MIRANTE DO CERRADO




Tirolesa do Mirante do Cerrado. Vai encarar? 


Tirolesa do Mirante do Cerrado. Vai encarar?  Foto: Adriana Moreira/Estadão





Trata-se de um lugar para relaxar. No alto de um morro,
próximo ao Aquário Encantado, o bar oferece uma bela panorâmica de Bom
Jardim, com uma piscina em forma de peixe para se refrescar enquanto
aprecia o pôr do sol. Se estiver sentindo falta de emoção extra, a
tirolesa de 700 metros de extensão (R$ 30, pagos à parte) dá conta do
recado. Preço: R$ 25. 

Trilhas e praias para curtir a Chapada

Véu da Noiva, a cachoeira mais famosa, só pode ser vista do mirante. Mas há outras opções para se refrescar no parque nacional





Cachoeira Véu de Noiva, cartão-postal da Chapada dos Guimarães


Cachoeira Véu de Noiva, cartão-postal da Chapada dos Guimarães Foto: Adriana Moreira/Estadão





A imponência da
cachoeira Véu de Noiva permanece igual, mesmo na época de seca, quando
há menos volume d’água. Agora, contudo, quem vai ao Parque Nacional da
Chapada dos Guimarães
só pode observá-la do mirante: sentir seus respingos sobre o rosto,
como fiz há 12 anos, é impossível. A trilha que levava a seu poço foi
fechada por risco de desmoronamento no entorno da cascata.



Para as melhores fotos, prefira a parte da tarde. Mas a beleza
é uma só a qualquer hora: as águas do Rio Coxipozinho despencam a 86
metros (equivalente a um prédio de 28 andares), pelas bordas de um
imenso paredão de arenito. Embora o banho ali seja vetado, há outras
maneiras de se refrescar do calor mato-grossense no parque. Duas
cachoeiras que ficavam em propriedades vizinhas foram incorporadas à
área protegida, para a alegria dos visitantes. 


Praia no cerrado




Praia que formada pela Cachoeirinha, no Parque Nacional Chapada dos Guimarães


Praia que formada pela Cachoeirinha, no Parque Nacional Chapada dos Guimarães Foto: Adriana Moreira/Estadão





A dos Namorados é menorzinha, compacta, mas deliciosa para
passar o tempo no seu poço raso. A segunda, a Cachoeirinha, tem uma
praia maior, para jogar a canga na areia e se refestelar sob o sol do
cerrado. A piscina natural que se forma ali é ótima para ir com as
crianças – mesmo debaixo da cascata, a água chega na altura da cintura.
Uma delícia, aproveitada em igual medida por turistas e moradores das
proximidades. 


A trilha que leva a ambas tem cerca de 1.200 metros de
extensão, é autoguiada e bem marcada – leve água e, se quiser curtir as
cachoeiras por mais tempo, também um lanche. No caminho, repare na
vegetação: próximo à entrada do parque, ela é ressecada, típica do
cerrado. Como há milhões de anos a área era ocupada pelo mar, é comum
encontrar no caminho fósseis de conchas e animais marinhos. Fotografe e
devolva para o mesmo lugar, ok?




Fóssil encontrado na Chapada dos Guimarães


Fóssil encontrado na Chapada dos Guimarães Foto: Adriana Moreira/Estadão





À medida que se avança para mais perto das águas, as árvores
ficam altas e imponentes, e dá para sentir a umidade no ar. “Mas as
espécies são as mesmas, a diferença está na cobertura do solo”, explica o
guia Lucas Buttura, da Confiança Turismo. 


Para ir a outros atrativos, no entanto, será preciso o
acompanhamento de um guia. O Circuito das Cachoeiras, por exemplo, tem
10 quilômetros de extensão (ida e volta) e passa por seis cascatas. Vá
com roupa de banho por baixo para se refrescar sempre que possível – e
não esqueça o protetor solar. A entrada no parque é grátis.


Na cidade




Igreja de Sant'Ana, do século 18, no centrinho da cidade de Chapada dos Guimarães


Igreja de Sant'Ana, do século 18, no centrinho da cidade de Chapada dos Guimarães Foto: Adriana Moreira/Estadão





Chapada dos Guimarães é também o nome da simpática cidadezinha
onde está o parque nacional. Mais alta que Cuiabá (800 metros acima do
nível do mar), tem um clima mais fresco à noite, especialmente no
inverno. Um alívio em comparação ao calorão da capital. 

No
centrinho, a praça no entorno da Igreja de Nossa Senhora de Sant’Ana, do
século 18, reúne uma feira de artesanato, bares e lojinhas simpáticas. A
Onng, por exemplo, vende camisetas de boa qualidade, com frases
tradicionais do Mato Grosso. Ao lado, a Delícias do Cerrado tem picolés e
sorvetes com sabores típicos, como umbu, buriti e tamarindo. 


Almoço com vista




Vista do restaurante Morro dos Ventos


Vista do restaurante Morro dos Ventos Foto: Adriana Moreira/Estadão





Mais afastado do centro, vale a pena reservar um almoço no Morro dos Ventos,
restaurante com um belo mirante – em dias claros, dá para ver até os
prédios de Cuiabá, a cerca de 70 quilômetros de distância.


Mas o que seria da vista se não fossem os sabores? O menu
tampouco decepciona, com pratos típicos do Estado, muito bem servidos.
Pedimos a costelinha de porco com arroz (R$ 136, para três pessoas, mas
quatro comem tranquilamente), acompanhada de feijão, torresmo, farofa de
banana e salada. Para fazer a digestão, melhor caminhar (bem pouco) até
o mirante antes de voltar para o hotel.

Fonte: AE
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