O dia que eu voltei para casa
2020-03-28 08:42:52

Eu li em algum lugar que nós temos três casas: o planeta, a nossa casa e o nosso corpo. Quando eu vejo nos dias de hoje, todos sendo compelidos a ficar em casa por causa de um vírus, eu me pergunto a qual dessas casas isso faria mais sentido?
 
Se fosse a Terra, me vem no pensamento que ela pode estar apelando pela nossa volta. Mas, já estamos nela! Será? Estamos fisicamente nela, mas perdemos a nossa conexão com ela. Isso se nota no fato de que os centros de recuperação, de qualquer natureza, geralmente ficam em lugares afastados em meio a natureza. Nas férias planejamos passar onde tem verde e água corrente, para renovar as forças e recuperar a energia. Se não tivéssemos perdido essa conexão com a terra, nada disso teria importância. Talvez nas folgas, iríamos a lugares badalados e movimentados como bem fazia o Chico Bento
quando ia passar as férias na casa do primo na cidade.

Sabe aquele vazio no peito, aquela saudade estranha que não se sabe do quê? Se ficar em silêncio um instante, talvez possa ouvir o seu chamado: vem, filho meu, vem, a hora chegou de voltar para casa, de voltar para a Mãe Terra! Você se lembra do dia que saiu de casa? Quando foi embora e não olhou pra trás? Perdido foi que eu me encontrei neste mundo vil, sem chão, sem água viva, sem fôlego e com o espírito abatido.
 
Eu tenho uma teoria de que essa pandemia tem a ver, de alguma forma, com o descaso com o nosso planeta, Pachamama, que nos nutre, nos protege, nos ensina e que, em contrapartida, poluímos com nossa sangria desatada de ter em vez de ser. É no momento de dor que passamos a dar sentido ao que realmente
importa.

E a nossa casa? Onde estamos agora com nossa família, sozinhos ou com colegas de quarto ou mesmo, bichinhos de estimação. Essa casa também está fazendo um apelo. É onde moramos, onde dormimos, onde estamos. Mas será que realmente estamos presente de fato? Eu mesma me faço essa pergunta quando passo mais tempo no ciberespaço do que comigo mesma e com os meus. O presente é um presente que, quando recusamos, perdemos a oportunidade de viver em estado de flow, ou seja, de fluir na corrente do universo e sintonizar com a prosperidade e infinitas possibilidades.

Nossa presença é tão preciosa que vale mais que todos os presentes que se possa comprar. Mas, você deve estar pensando: é porque você não tem o marido que eu tenho, ou a filha que eu tenho, ou o pai que eu tenho. Passe um dia com eles e depois me diga que raios de presente é esse?

Eu demorei perceber o presente que a minha família é para mim e o quanto a minha ausência, a minha indiferença machucou a todos, inclusive a mim mesma. Amigos são legais e as festas muito loucas, mas na hora do apuro a gente apela é para a nossa mãe. Aquela que nos perturbou a vida toda. Quando a coisa aperta a gente liga pro pai. Aquele chato irritante que reclama de tudo.

Sabe porque o filho fica comportado longe da mãe e quando ela chega começa a manha? Porque longe da mãe não podemos ser nós mesmos, perto dela podemos relaxar porque sabemos que ela nos aceita como somos. Lar é onde você pode ser você mesmo.
 
Quanto à dificuldade nos relacionamentos é a forma de moldarmos nosso espírito vendo no outro aquilo que repudio em mim. O outro é o meu espelho, meu reflexo me mostrando onde preciso elaborar meus sentimentos, pensamento e emoções. Não tem outro jeito de ser uma pessoa melhor. Sem atrito não há pérolas. Sem lama não há lótus. A família é a nossa olaria.
Que tipo de vaso você quer ser?

Aproveite esse tempo em casa para se perceber e perceber o outro. Ressignifique suas relações. Que tipo de pai eu tenho sido? Que tipo de mãe eu gostaria de ser? Como eu me sinto em relação ao meu cônjuge? Porque resolvi viver sozinho?

E a última casa? Nosso corpo! Sem dúvida alguma, se não cuidar bem dessa casa, todas as outras duas padecem. Ela é a mais importante. Seu corpo é seu templo. Ele é sagrado. Então, porque o maltratamos tanto para atender expectativas que nem são nossas? Dormimos quando não temos sono, acordamos quando ainda queremos dormir mais. Comemos aquilo que faz mal. Poluímos nosso corpo com substâncias que agridem seu funcionamento. Fazemos cada coisa com ele que seria considerado insano fazer o mesmo com outro corpo que não fosse o seu. E o mais aberrante ainda é gritarmos a plenos pulmões: salve nossa terra, não polua nossas águas, jogue o lixo no lixo, não maltrate os animais, não derrubem nossas matas! Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço comigo mesmo.

Se a mente pensa o que o coração não sente, produz um paradoxo que desalinha todo o seu ser. Se você não está alinhado com o que pensa, sente e faz, seu corpo padece, fica ácido, baixa a imunidade e o corpo fica vulnerável a vírus e bactérias. Mata o mal em ti, que o mal do mundo não te atingirá (Krishnamurti).

Sua casa mais íntima está clamando: olha para mim! Você mora aqui nessa sujeira! Tá na hora de uma faxina interior. Jogar fora tudo que é tóxico e que não serve mais. Desapega. Solte. Fique leve. Abra espaços.  

Mas, e o vírus? Que vírus? Ah, desculpe! Estava ocupada me conectando de novo com as minhas casas que nem percebi.

Fonte: Janete de Melo Nantes
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