Brumadinho: A mancha do descaso
2020-01-24 13:13:46
“Direitos garantidos aos atingidos — como a criação de grupos com o objetivo de prestar assessoria técnica independente da Vale — não estão sendo cumpridos”, afirma a defensora pública Carolina Morishita, que atua em prol dos interesses das famílias das vítimas. Em fevereiro de 2019, a mineradora assinou um acordo que previa a formação das equipes citadas pela defensoria pública. Contudo, a empresa até hoje resiste a cumprir o trato, sob a alegação de que sairia caro — 70 milhões de reais para cada um dos cinco grupos determinados, ou seja, uma despesa total de 350 milhões de reais.

O desastre, porém, não arruinou a Vale. De lá para cá, o valor de mercado da mineradora subiu. O aumento, puxado por demandas da China, fez a companhia ultrapassar a avaliação de 300 bilhões de reais, 5 bilhões acima de sua cotação antes do rompimento da barragem B1 de Brumadinho.

É verdade que, além do que foi mencionado, a Vale tomou outras providências. Implementou, por exemplo, atendimento psicológico e suporte financeiro a familiares dos mortos (leia abaixo). Não basta. “Produtores rurais, não atingidos diretamente pelo lamaçal dos rejeitos, ainda buscam reparação, pois também tiveram a saúde emocional abalada, uma vez que não podem mais manter a forma tradicional pela qual viviam antes”, diz Carolina Morishita.

Outro ponto que reclama redobrada atenção é a recuperação do meio ambiente. O Rio Paraopeba, poluído pelos rejeitos, abastece 30% da população de Belo Horizonte. Alguns de seus trechos foram soterrados, e há locais onde se registrou aumento de 25% da mortalidade de algumas espécies de peixe. Na quinta-feira 23, a SOS Mata Atlântica divulgou um novo relatório sobre a análise de 356 quilômetros das águas fluviais atingidas. De acordo com a ONG, os indicadores de qualidade aferidos revelaram que elas estão impróprias para uso em toda a extensão percorrida. Em onze locais, os contaminantes impedem a presença de qualquer vida aquática.

Logo após a calamidade em Brumadinho, a Vale anunciou que desativaria nove barragens semelhantes à que se rompeu, ao longo de três anos, a fim de evitar outras tragédias — fez isso com uma delas em novembro último. É pouco. O pior é que, de acordo com a consultoria ambiental dinamarquesa Ramboll, ainda existem 122 barragens em risco no Brasil. Desse total, segundo a Ramboll, 84 são da Vale — onze com a mesma estrutura da B1 de Brumadinho. Isso significa que o país não está livre de ver a história se repetir — novamente como tragédia.
Fonte: Veja
Comentrios.
Deixe um comentrio.